Nísio, Vive ! Justiça já !

guarani-kaiowá             Por Priscila Anzoategui

Hoje é dia de reza, muita reza para os Guarani-Kaiowá do tekoha Guaiviry, fincado entre os municípios de Aral Moreira e Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul. Há quase três anos, uma de suas principais lideranças foi morta, assassinada a mando dos fazendeiros.

Na denúncia ajuizada pelo Ministério Público Federal, vários crimes foram cometidos naquela manhã do dia 18 de novembro de 2011: homicídio qualificado, lesões corporais, porte ilegal de armas e formação de quadrilha.

O homem a que me refiro é Nísio Gomes, um Guarani-Kaiowá que parece pequenino nas fotos, mas não era, Nhanderú e valente. Não, não tive o prazer de conhecê-lo, mas a sua história atravessa até hoje os ares do velho oeste.

Assim como outros Guarani-Kaiowá cansados de passar fome na beira da estrada, no dia 1º de novembro de 2011, um grupo dessa etnia resolveu fazer a retomada do seu tekoha, localizado na fazenda Nova Aurora, entre os municípios já citados.

A propriedade rural tem como titular Ruth dos Santos Martins, mas na data dos fatos estava sendo arrendada para Luiz Antonio Ebling Amaral.

Segundo a reportagem do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) , quando os fazendeiros souberam da retomada dos indígenas, tentaram primeiramente oferecer dinheiro,  por intermédio de outro índio, como tal oferta foi recusada, preferiram expulsá-los por conta própria, com receio de que outras propriedades poderiam ser ocupadas.

Não tardou muito para que planejassem o despejo de maneira ilegal e coercitiva, os fazendeiros contrataram os seguranças da GASPEM (empresa de segurança privada) para fazer o serviço sujo.

Assim, no dia 18 de novembro de 2011, de manhãzinha, foi iniciada a “caça” aos Guarani-Kaiowá, mais de 10 homens armados com espingardas calibre 12, adentraram no acampamento, atirando em todas as direções, como se fazia em épocas remotas.

Os Guarani-Kaiowá, com sua força espiritual que os guiam, resistiram bravamente, porém, Nísio foi acertado em cheio com quatro tiros, um menor também foi alvejado.

Aquele velho jargão “se não há corpo, não há crime”, fazia sentido para os assassinos, depois de executarem Nísio, colocaram o corpo numa camionete,  sem deixar rastros para que o seu povo dissesse adeus, até hoje o corpo continua desaparecido.

São 19 réus que respondem pelos crimes, 3 fazendeiros, 1 funcionário da fazenda, o presidente do sindicato rural de Aral Moreira, 12 seguranças da empresa GASPEM , e ainda o proprietário da empresa de segurança privada e o seu  administrador.

Dentre os 19 acusados, 7 estão presos preventivamente, os outros 12 respondem em liberdade, foram marcadas as primeiras audiências de instrução e julgamento para os dias 24 e 25 de setembro, em que algumas testemunhas serão ouvidas, na sede da Justiça Federal de Ponta Porã.

Como há tantos envolvidos, a oitiva das testemunhas e dos acusados pode durar até cinco anos, porém, tudo depende da celeridade e eficiência do Judiciário, para que finalmente os assassinos sejam pronunciados e levados a Júri popular.

Boas notícias perpassam esse universo do bang bang: a GASPEM, empresa de extermínio indígena foi fechada, devido um processo que o MPF saiu vitorioso.

Más notícias também: apesar do tekoha Guaiviry estar na lista das terras indígenas presentes no TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) assinado entre o MPF e a Funai, que determina a demarcação de vários territórios Guarani-Kaiowá, ainda está em fase de identificação e delimitação.

O atraso na demarcação das terras indígenas em todo o Brasil tem nome e sobrenome, o Governo Dilma foi o único que não demarcou nenhuma terra indígena no estado de Mato Grosso do Sul, homologou 11 TI´S no Norte, em comparação com os governos anteriores, foi o que menos demarcou, desde a promulgação da Constituição Federal de 1988.

Essa morosidade faz parte do pacto entrelaçado pelo Governo Federal com os grandes proprietários de terra, representantes do agronegócio, que com suas commodities, monocultura de soja, cana-de-açucar e atualmente eucalipto, destroem o solo natural, tornando-o inútil para outras finalidades.

Há ainda a cara de pau, dos donos do agronegócio, de promoverem Leilão Genocida, o que aconteceu no final do ano passado em Campo Grande-MS, onde foi arrecadado 1 milhão de reais ( que está depositado em juízo, tendo em vista o Mandado de Segurança impetrado pelo advogado Luiz Eloy), verba para contratar mais capangas para exterminar os índios, o grande evento contou com a participação de vários parlamentares, dêem uma olhada nesses nomes antes de sair votando: Ronaldo Caiado (DEM-GO), Kátia Abreu (PSD-TO), Zé Teixeira (DEM-MS), Waldemir Moka (PMDB-MS), Luiz Henrique Mandeta ( DEM-MS), Reinaldo Azambuja (PSDB-MS), Fábio Trad (PMDB-MS), Mara Caseiro (PTdoB-MS),  Jerson Dommingos (PMDB-MS), Junior Mochi (PMDB-MS) e Nelsinho Trad (PMDB-MS).

Certa vez ouvi que os Guarani-Kaiowá acreditam que o mundo resiste e continua existindo por causa de suas rezas, Nisio era um Nhanderú, talvez esse povo tenha razão, continuamos firmes por causa deles, essa justiça do modelo ocidental faz algum sentido para nós, não-índios, para os Guarani-Kaiowá o que determina as suas vidas é estar de volta as terras originárias.

nisio 1 marchanisio 2 marchanisio 3 marchanisio 4 marcha

Fontes:

http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=7741&action=read

Fotos: Luiz Henrique Eloy e UBC

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