Tey´Juçu- Como a mídia sul- matogrossesense apresenta apenas a versão dos latifundiários

latuff

 

Por Priscila Anzoategui

Como jornalista não posso deixar de analisar as notícias veiculadas pela imprensa sul mato-grossense quando se trata da questão indígena. Fatos que são apresentados apenas uma versão, a dos grandes latifundiários, cito aqui alguns exemplos mais recentes:

Grupo de 50 indígenas invade propriedade rural em Caarapó (site:http://www.midiamax.com.br/noticias/940571grupo+50+indigenas+invade+propriedade+rural+caarapo.html ).

Índios invadem fazenda e produtores denunciam emboscada (site: http://www.campograndenews.com.br/cidades/interior/indios-invadem-fazenda-e-produtores-denunciam-emboscada).

Índios invadem fazenda e atacam produtores em Caarapó (site: http://www.correiodoestado.com.br/cidades/indigenas-invadem-fazenda-e-entram-em-conflito-com-produtores/234389/).

Quando a mídia local aborda a questão indígena, primeiro que sempre utiliza o termo “invasão”, isso não só se tratando de índios retomando suas terras tradicionais, a bem da verdade, quando comunidades inteiras ocupam espaços públicos nas áreas urbanas, a fim de que seja garantido o seu direito à moradia, o termo “invasão” continua ressoar indistintamente.

Além disso, não há na prática jornalística do velho oeste, a verdadeira apuração dos fatos, geralmente só se mostra um lado, o lado mais forte, apenas uma fonte é ouvida.

Até pode-se fazer referência a uma outra versão, a de algum órgão ligado a luta dos povos indígenas, como o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), todavia, essa versão não está no título da matéria, tampouco, está em destaque, fica na parte final, ocupando poucos caracteres, querendo dizer, ACREDITE NA VERSÃO DOS FAZENDEIROS !!!!

Nos veículos citados acima, em nenhum momento é demonstrado o ponto de vista dos indígenas, ademais, no Correio do Estado a matéria é totalmente contraditória, primeiro diz “A etnia da tribo ainda é desconhecida e suspeita-se que os índios tenham vindo de outra área desocupada”, posteriormente, ressalva “Os Kaiowá reiteram que não deixarão o local (… ) A chegada de mais de 600 indígenas oriundos historicamente deste território é esperada pelo grupo Kaiowá, nos próximos dias”.

Ou seja, se a etnia é desconhecida como pode ser ao mesmo tempo indígenas Guarani-Kaiowá?

E a tal da emboscada , conforme descrevem os fazendeiros, noticiado pelo Correio do Estado, os indígenas estavam armados, com espingardas, revolveres, lanças, flechas e facões, analisando todas as notícias, observa-se a foto de um índio com arco e flecha, possivelmente “aterrorizando” os fazendeiros, que coitados, querem apenas resolver toda essa problemática pacificamente.

O que não se conta nesses veículos é que na tarde do dia 08 de dezembro, dezenas de camionetes chegaram ao local da retomada, atirando nos barracos, dando cavalo de pau, para que a poeira subisse e os indígenas não conseguissem enxergar o que estava acontecendo.

Só que foi feita uma vítima , conforme relatam os Guarani-Kaiowá que estavam no local dos fatos, os pistoleiros atingiram Júlia Venezuela de Almeida, uma Guarani-Kaiowá de 17 anos, como aconteceu com Nísio Gomes em 2011, seu corpo foi arrastado e a colocaram na caçamba de um das camionetes, não se sabe até agora se a menina está viva.

E ainda lembrando o assassinato de Nísio Gomes ( diga-se de passagem, até hoje o corpo não foi encontrado), os fazendeiros na época, plantaram a notícia de que Nísio estava vivo, vivendo no Paraguai, ou seja, é quase que impossível para a imprensa supramencionada mostrar a realidade dos fatos, porque estão sujeitas a esse jogo de poder mesquinho, o qual protege quem a beneficia mais.

Após esse ataque do dia 08/12, que só foi noticiado pelo site do Cimi (dirão os seguidores de Kátia Abreu & CIA : essas ONG´S que incitam os índios, como se eles não tivessem capacidade para se organizar, como se não existisse a Aty Guasu ou o Conselho Terena), bem como pelas redes sociais, a polícia federal juntamente com a Funai chegou ao tekoha Tey´Juçu na tarde do dia 09, constatando que foram destruídos os barracos erguidos pela comunidade.

E mais, segundo informações do site do Cimi veiculadas ontem :

Para ter acesso ao local onde se encontra a sede da fazenda é preciso passar por uma estradinha de terra que cruza com o acampamento erguido pelos Kaiowá e Guarani no tekoha – destruído pelos pistoleiros. Nesta posição estão os indígenas. A estratégia deles foi montar uma barreira na estrada. Cerca de 200 metros à frente deles, sob árvores frondosas, o bando ligado aos latifundiários fica se protegendo do sol, à espreita. Quem esteve por lá na tarde desta terça-feira, conforme apurou a reportagem, pode ver cerca de 35 caminhonetes paradas e os pistoleiros aninhados no sopé da árvore.

“Entramos na área por um outro caminho, desviando de Caarapó. De fato o clima está muito tenso. São perto de 35 caminhonetes e homens armados sob árvores. A Funai estava lá, portanto não pode dizer que nada estava acontecendo”, afirma fonte que não identificamos por razões de segurança.

(http://wwww.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=7901&action=read).

Verifica-se então que a imprensa sul-matogrossense sequer vai até o local dos fatos, checa suas fontes, ouve os dois lados, não há o tal do jornalismo imparcial, que nós, jornalistas, somos quase que obrigados a seguir durante o curso de jornalismo, não há ética, pois a notícia é pautada de acordo com os padrões da linha editorial tendenciosa dos jornais. E a linha editorial dos jornais daqui servem para manipular e ao mesmo tempo proteger os representantes do agronegócio.

Talvez, possam pensar os seguidores de Kátia breu & CIA, mas esses outros veículos, os veículos da “esquerda” também não são imparciais, também preferem veicular apenas a versão das minorias. Pois bem, esses outros veículos tem a função social de proferir o discurso dessas minorias…porque se não o fizerem, quem o fará?

Esses outros veículos fazem parte de um jornalismo menos hipócrita, são veículos alternativos, que estão dispostos a denunciar aquilo que a grande mídia tentar esconder embaixo do tapete.

Esses outros veículos são combativos, atuantes, críticos, e só existem ainda, porque possuem pessoas realmente guerreiras, apaixonadas pela causa, que desafiam romper com o sistema capitalista, onde notícia é vista como mera mercadoria.

Para combater toda essa mediocridade é pertinente recordar as palavras de Malcolm X:

“Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo”.

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s