Ñande Ru Marangatu – Entre a bala e o despejo.

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Por Priscila Anzoategui

390 indígenas assassinados em 10 anos no Mato Grosso do Sul. Mais de 4 ataques a comunidades indígenas em menos de um mês nesse mesmo Estado,  saldo, um Guarani-Kaiowá assassinado, um Ñandeva baleado, crianças, idosos e mulheres feridas.

E no meio da tragédia anunciada há o mesmo “modus operandi”, reuniões em Sindicatos Rurais para planejar o terrorismo, muitas caminhonetes para coagir os índios, pistoleiros e polícia do estado, escoltando produtores rurais.

Há dez anos, em Ñande Rú Marangatu, após a homologação do território tradicional dos Guarani-Kaiowá, devido uma decisão do STF, os indígenas foram duramente expulsos,  cenas apavorantes marcaram essa data, crianças chorando, rezadores com seus mbarakas, fazendo o possível para fortalecer seu povo, os barracos de lona foram queimados…e os povos originários tiveram que sair, mais uma vez estavam sem o seu tekoha, onde viver então ?

Voltaram, cansados de esperar a justiça, que só pende para o lado dos magnatas, que balança conforme o poder aquisitivo dos proprietários rurais, que decide não pelo viés da dignidade humana, mas sim, reforçando  o princípio “sagrado”da propriedade privada.

Em menos de uma semana de retomada, fazendeiros se juntaram no Sindicato Rural de Antônio João para provocar o caos, como descrito acima, fizeram a reintegração de posse sem passar pelo procedimento judicial…atropelaram todo e qualquer legalidade, o mais grave é que as olhos de parlamentares federais. E mataram  Simião, crianças foram feridas com bala de borracha, DOF, polícia paga com os nossos impostos estava presente, não de maneira preventiva, fazia a escolta privada desses fazendeiros.

Até agora não há nenhum suspeito do assassinato de Simião, versão  informada pela polícia federal, desmentindo a do Deputado Mandetta, é  que não fazia horas que Simão tinha sido morto, realmente foi assassinado a sangue frio no momento do ataque dos fazendeiros.

Depois do ocorrido, tendo em vista a grande comoção social que  fato causou, o Ministro da Justiça veio ao MS, tentando mais uma vez instalar uma “mesa de negociação”, garantindo a presença do exército na área, bem como que enquanto não fosse escolhidas as 5 áreas para a definitiva demarcação, nenhuma reintegração de posse aconteceria.

Pois bem, o Senhor Eduardo Cardozo virou as costas, e mais 4 ataques ocorreram contra as comunidades Guarani-Kaiowá, Guyra Kamby´i, Potrero Guasu, Kurupi e Pyelito Kue, nessa última idosos foram torturados, levaram coronhadas na cabeça, nos tornozelos até quebrarem, dois menores estão desaparecidos, há vestígios no local de que tenham sido assassinados.

E mais, o TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região) decidiu nos autos do processo de Ñande Rú Marangatu , pela expulsão dos Guarani-Kaiowá, mesmo esse território já ter sido homologado em 2005, tropas de choque, polícia federal e corpo de bombeiros estão descendo nesse exato instante a Antônio João, para mais uma vez, através do poderio repressivo do estado, despejar a força os indígenas.

Chegou a hora dos movimentos sociais que apoiam a luta indígena, e que já se encontram criminalizados por esse mesmo aparato truculento do estado, descer até Ñande Rú Marangatu, a fim de juntar forças, ser solidários aos Kaiowá, pensando mesmo na segurança dos indígenas, tão marginalizados e invisibilizados pela nossa sociedade.

Você tem sangue de índio?

Como se sabe a terra do agronegócio é reconhecida pelos piores índices de violações de direitos humanos em relação aos povos indígenas do mundo, na terra do boi, do milho, soja e cana-de-açúcar, os indígenas são invisíveis, para a população sul-matogrossense em geral eles são apenas “bugres”.

Nasci em Dourados, que fica no sul do estado, cidade localizada entre duas aldeias indígenas, Jaguapiru e Bororó, com 12 mil indígenas confinados em 3,6 mil hectares. Desde criança, escutava essa palavra “bugre” para se fazer referência aos indígenas, era  proibida andar descalça, perdia meus sapatos quase sempre, e tinha que ser mais precavida , pois sempre que estava descalça, as pessoas falavam que eu parecia uma “bugra”,  lembro-me bem de que toda semana crianças da minha idade  batiam palmas pedindo pão velho. Eu não entendia muito bem o que acontecia até que uma vez na escola o poeta Emmanuel Marinho modificou o silêncio que cercava essa problemática. Recitou para nós seu poema “Genocíndio”, que começava assim:

(crianças batem palmas nos portões )

tem pão velho ?

não, criança

tem o pão que o diabo amassou

tem sangue de índios nas ruas

e quando é noite

a lua geme aflita

por seus filhos mortos.

Acho que digeri esse poema por anos… e quando voltei a morar em Mato Grosso do Sul esse poema  me deu foi uma azia e indigestão. A realidade de 20 anos atrás continuava sendo a mesma. Voltei com um filho loiro de olhos azuis, bebê Johnson, diziam. Nunca iria sofrer preconceito pela cor de pele. Poderia ter ficado quietinha, como o sistema insiste em nos colocar na linha, na linha do silêncio, silenciar é preciso.

Mas resolvi cursar direito numa universidade cheia de filhos do agronegócio, deu no que deu. Só que como dizem por aí “Deus escreve certo por linhas tortas”, fui começando a perceber que poderia utilizar o que estava aprendendo para fazer outra parada, não pensar só no meu umbigo, o buraco era mais embaixo.

Lá vai ela desconstruir tudo… Há então em mim essa necessidade de lutar, não consigo separar minha vida ideológica da vida social, não consigo ter amigos que acham o Bolsonaro o supra-sumo da política.

Meu filho vem me falar que os bandeirantes não foram nem heróis, nem bandidos, tá escrito no livro de história dele, e a educação burguesa vem mesmo para lecionar a neutralidade, sejamos neutros, em cima do muro, “de boa”.

Não consigo me calar quando políticos que não seguram armas de fogo, mas assinam PEC´S, CPI´S, qualquer tipo de norma jurídica ou administrativa, que frequentam sindicatos rurais e leilões, visando extinguir os direitos indígenas dispostos na Constituição Federal de 1988.

Direitos estes que tinham prazo para serem cumpridos. E agora o Estado quer negociar o inegociável… uma vez ouvi  da Sônia Guajajara essa afirmativa: “Direito não se negocia, se cumpre!”.

E para finalizar o teatro de horrores, a Assembleia Legislativa de MS, nos brinda com uma CPI do Cimi, sim, vamos investigar aqueles que “incitam os indígenas”, tendo em vista que os mesmos não tem capacidade para se auto-organizar. Ou insiste em apresentar fatos falaciosos, trazendo sociólogo e jornalista da extrema direita, que verbalizam teorias da conspiração, que mais parecem piadas.

Tenho certeza que esses nobres parlamentares que assinaram a favor da instalação dessa CPI nunca frequentaram uma grande assembleia indígena, Aty Guasu ou  Conselho do Povo Terena. Quase certeza que também nunca tenham lido os arts. 231 e 232 da Carta Magna.

E aí pensando com os meus botões, vão aproveitar os holofotes para se candidatar a algum cargo mais relevante que esse da bancada estadual. Dizem que os índios querem evoluir, que esses índios não tem mais cultura, usam celular e calça jeans. Só faltam dizer que não são mais índios e que por isso não tem mais direito à demarcação de seus territórios tradicionais.

E continuam com o pensamento colonialista, pra quê eles querem terras senão plantam nada?

Esse discurso não é proferido pelos nobres parlamentares somente, venhamos e convenhamos, muitas pessoas que conheço reproduzem essa falácia, e acham que sou louca de pedra, porque não penso como eles.

Já ouvi de pessoas que tem graduação, que moraram em São Paulo e o caralho, que índio de verdade é aquele lá do Xingu, que vive no meio da floresta com a peninha na cabeça, ah, lá eu gostaria de ir, achando que o Xingu é um Spa cinco estrelas.

Vivo num Estado que mata índio todo dia, com vários instrumentos, caneta, pistola, invisibilidade e preconceito.

E que agora está querendo criminalizar os movimentos sociais que apoiam a luta desses povos indígenas, com CPI de cartas marcadas, manipulada por uma bancada que já tem posição e pena, antes de ouvir os investigados. Vivo num Estado que sindicatos rurais podem legalmente patrocinar o genocídio, que é conivente com leilão que tem como objetivo financiar milícia armada. Vivo num Estado que se diz “Democrático de Direito” que tenta a todo instante atropelar os direitos indígenas consagrados na Constituição Federal de 1988.

QUEM MATOU? QUEM MATOU?

Perguntava um outro, que ouvia a história.

E aquele que era tratado como louco disse:

Fui eu que matei! Fui eu !

Eu matei !

Você matou!

Todos nós matamos!

SOMOS TODOS ASSASSINOS!!!

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