Aty Kuña Guasu – A Grande Assembleia das mulheres Guarani e Kaiowá

Dona Alda, Ñandesy (rezadora), que mora na aldeia Jaguapiru, em Dourados, me relatou, durante a minha pesquisa de mestrado em antropologia, que teve um sonho, depois de algumas noites de reza. Neste, uma voz saia de um pote de barro, a qual lhe dizia que ela tinha que organizar a luta das mulheres Guarani e Kaiowá. Ela questionava a voz como iria fazer isso, teve como resposta “Olhe para as suas mãos”.

O sonho para os Guarani e Kaiowá tem essa potência reveladora. Dona Alda me contou que no começo das Aty Guasu (Grande Assembleia dos Kaiowá e Guarani) as mulheres pouco falavam.  Não há de se negar que as mulheres se envolviam nas questões políticas no âmbito privado, nessa nossa lógica ocidental, pois quando os homens voltavam das reuniões com questionamentos, o faziam dentro do espaço onde se convivia com a sua parentela.  Ou seja, quem dava a opinião final, o desfecho das divergências, eram as mulheres.

Mas para Dona Alda e para as outras mulheres Guarani e Kaiowá essa participação não era suficiente. Assim, a primeira grande reunião das mulheres Guarani e Kaiowá, foi realizada em 2006, no tekoha Ñanderu Marangatu.

O local foi escolhido justamente porque em 2005 depois que o Presidente Lula assinou a homologação da área, os fazendeiros ingressaram com um mandado de segurança no STF, com a causa ganha em sede de liminar, o ato administrativo foi suspenso. Os Kaiowá e Guarani foram despejados da sua terra tradicional em dezembro de 2005. Realizar essa grande Aty Kuña em Marangatu era um modo de fortalecer a luta de todos os Guarani e Kaiowá.  E esse encontro foi tão emblemático, que umas das deliberações foi fazer a retomada novamente.

A segunda Aty Kunã demorou seis anos para acontecer, então,  percebe-se que essa grande reunião das mulheres não tem uma periodicidade definida, conforme, nós, karaí (não-índio) esperamos, tem outra temporalidade, fora dos nossos paradigmas.

Essa segunda edição foi na reserva Jaguapiru, em Dourados, entre os dias 24 e 29 de abril. Ainda nesse ano de 2012, houve uma terceira edição em Sombrerito (perto do município de Sete Quedas, no extremo sul do MS), mas com o nome diferenciado “Kuñangue Guarani Ha Kaiowá Aty Guasu Irundyha”.

As pautas debatidas nessas grandes reuniões das mulheres Guarani e Kaiowá vão além da demarcação de seus territórios tradicionais (apesar desta ser a pauta principal).

Debatem sobre educação, saúde, sustentabilidade, políticas públicas para combater a violência doméstica, denunciam a violência sofrida devido aos ataques de pistoleiros nas retomadas- tema ligado à segurança pública, alimentação adequada, casamentos interétnicos nas reservas, dentre outros.

Em 2013 aconteceu a IV Aty Kuña novamente na Jaguapiru, no ano seguinte, a sua última edição desde então, na TI Sucury´i, Aty Guasu Kuñangue Arandu Kaa´guy.  Nesta, a presidenta da Funai estava presente, Maria Augusta Assirati, e foi revisado processo por processo, relativo as áreas inclusas nos GT´S (Grupos de Trabalho) que estavam inseridas no processo administrativo de demarcação.

Há três anos não ocorre essa grande assembleia das mulheres Guarani e Kaiowá, tendo em vista, principalmente a conjuntura política atual. O orçamento da Funai é o pior dos últimos 10 anos,  não há recurso suficiente nem para apoiar a realização das Aty Guasu (grandes assembleias dos Guarani e Kaiowá).

E ainda, as organizações indigenistas, que sempre foram aliadas do movimento indígena, estão sofrendo perseguição política. Aqui no Mato Grosso do Sul ficou nítida essa situação com a instalação da CPI contra o CIMI, em 2015, pela Assembleia Legislativa. O próprio Coletivo Terra Vermelha também foi alvo da ira dos ruralistas, o MPE (Ministério Público Estadual), provocado pela Deputada Mara Caseiro (PSDB), instalou inquérito civil para investigar uma vaquinha virtual que fizemos em 2015, a fim de comprar alimentos para as retomadas, após o assassinato de Simião Vilhalva, em Ñanderu Marangatu (esse IC foi arquivado no começo de 2017).

Ainda pesa nessa atual conjuntura, os ataques paramilitares e assassinatos de lideranças indígenas, como os que ocorreram em Ñanderu Marangatu (2015) e na TI Dourados Amambai Peguá I (conhecido como massacre de Caarapó- 2016).  Esse aumento da violência contra os Kaiowá e Guarani reverbera na articulação desse povo, sem contar com as demais pautas anti-índigenas que percorrem os corredores dos poderes legislativo, executivo e judiciário (PEC 215, marco temporal, Portaria 303 da AGU, CPI da FUNAI/INCRA, militarização da FUNAI).

As mulheres Guarani e Kaiowá, desde 2015, durante os outros encontros, como as pequenas reuniões do Conselho Aty Guasu, as assembleias da juventude Kaiowá e Guarani (RAJ- Retomada Aty Jovem) estão tentando se reorganizar. A pauta da realização da VI Aty Kuña sempre está em destaque nessas discussões, sendo de interesse não só das mulheres, mas também dos homens.

Janio Nanjio, representante da RAJ, com a intenção de ajudar as mulheres, abriu uma vaquinha virtual, no intuito de arrecadar recursos financeiros para que a VI Aty Kunã seja finalmente realizada em setembro.  Não há recursos para cobrir algumas despesas fundamentais. As mulheres escolheram como local a retomada Kurussu Ambá (perto do município de Coronel Sapucaia e Amambai), sendo que nesta área não há uma estrutura física mínima para viabilizar a grande reunião (como é uma área de retomada, não há escola, água potável e etc).

Apenas está garantido o recurso para o transporte, então falta garantir a alimentação, o aluguel de tendas e cadeiras, lona e chuveiros para fazer os banheiros, a construção de um fogão de lenha, gasolina e dinheiro para o aluguel de um automóvel, já que os membros do Conselho Aty Guasu convidam as comunidades pessoalmente.

O link da vaquinha é esse:

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/vaquinha-aty-kuna-guasu?utm_campaign=facebook&amp%3Butm_content=175422&amp%3Butm_medium=button&amp%3Butm_source=VkCreated

Incluir as mulheres indígenas no debate das relações de gênero, questionando os seus papéis sociais, numa perspectiva intercultural, é fazer com que essas mesmas se tornem sujeitos de direito, ampliando sua luta com as demais reivindicações indígenas.  Nessa mesma linha:

A maior participação política das mulheres indígenas nos diferentes âmbitos e ações direcionadas a seus povos, provoca a discussão sobre seu (re)posicionamento e as concepções de gênero em suas comunidades. Ao se tornarem atrizes no campo da política e das negociações com a sociedade não indígena, passam a representar não somente seus interesses, mas principalmente de seus povos, como elas preferem sugerir em muitas ocasiões (SACCHI, 2006, p. 142).

Por fim, cito a fala de Dona Alda durante a 3ª Aty Kunã Guasu:

Esse evento é Kuñangue Guarani Há Kaiowa Aty Guasu Irundyha, que significa que é feito pelas mulheres, mas é aberto à participação de todos, para fortalecer nossa comunidade. Nós, mulheres, queremos o melhor para nossos filhos e nosso povo. Por isso estamos aqui, reunidas. Antes os homens não deixavam a gente falar na Aty Guasu, mas agora é diferente. Antes faltava coragem para enfrentar o marido. Agora nós, mulheres, falamos e lutamos junto com nossos maridos e assim, somos mais fortes.

(BLOG DA FUNAI, 2013, s/p).

 

Documentos finais das Aty Kuña:

http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=6231&action=read

http://fbes.org.br/2013/04/09/documento-final-da-aty-guasu-kuna-assembleia-geral-das-mulheres-guarani-e-kaiowa/

http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=7607&action=read

 

Priscila Anzoategui, membro do Coletivo Terra Vermelha, antropóloga e jornalista.

 

aty kunã 2006

Foto da primeira Aty Kuña (2006) em Ñanderu Marangatu. Acervo da Dona Alda.

convite aty kuna

Convite da 5ª Aty Kuña em Sucury ´i.

convite verso

convite da 5ª Aty Kunã- programação

quarta aty kuna

Foto da 5ª Aty Kuña. Crédito: Mário Vilela

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